II. Fatores geradores do "Espírito de Excelência" (continuação)
O Espírito de Excelência não aparece por acaso, deve ser cultivado por atitudes corretas. Analisando a vida de Daniel aprendemos as características geradoras da Excelência. Neste momento analisaremos como um coração machucado impede alguém de alcançar a Excelência.
3. Um Coração Curado
No ano de 587 AC quando o povo de Israel foi levado para o cativeiro Babilônico, Daniel tinha em torno de 14 anos de idade. A Bíblia nos relata que Daniel foi honrado por Nabucodonozor, por seu sucessor Belsazar e nos próximos dois reis persas, Ciro e Dario, ele prosperou extraordinariamente. No primeiro ano do reinado de Dario (521 AC), Daniel entendeu, pela leitura e análise da Palavra Profética, que havia chegado o fim do tempo do exílio, segundo profetizado por Jeremias (Dn 9:1). Pelos cálculos, observamos que Daniel deveria ter em torno de 80 anos quando começou a fazer guerra espiritual para que o povo de Israel fosse livre do cativeiro e voltasse para Israel.
Durante o tempo da vida de Daniel, muitos reis se passaram e ele foi honrado e prosperou, sendo um dos principais em todos os governos. Os persas, com Ciro na frente, invadiram a Babilônia, tomaram o governo das mão de Belzasar, porém Daniel continuou nas primeiras posições.
Uma das coisas que surpreendem na vida de Daniel é que ele prosperou durante toda sua vida. Não foi por apenas um período, sempre esteve a frente, sempre esteve por cima. Muitos homens começam bem, mas depois de certo período, por possuírem problemas interiores não resolvidos, param, desistem ou caem em sua caminhada. A pessoa de Excelência tem uma característica fundamental, é uma pessoa resolvida interiormente. Os problemas interiores não interferem em sua caminhada, impedindo que haja uma continuidade de sucesso.
Toda pessoa com problemas interiores, pode começar bem, mas seus projetos não se completam e sempre ficam no meio do caminho. É necessário que se seja sarado interiormente para se alcançar o sucesso crescente e duradouro. O "Espírito de Excelência" só pode ser encontrado onde os traumas do passado tenham sido resolvidos. "Excelência" é estar resolvido.
Existem vários exemplos de pessoas que tinha sobre suas vidas um destino profético excelente, mas por problemas interiores, os projetos não se concretizaram, tendo um fim desastroso. Tudo isto porque não estavam resolvidos interiormente.
Talvez o exemplo bíblico mais dramático seja o da vida do rei Saul.
a. Saul tinha um destino profético tremendo
- Saul tinha uma identidade, tinha uma história familiar. (I Sm 9:1)
- Saul vinha de uma família que possuía muitos bens, isto é, uma família rica. (I Sm 9:1)
- Não havia ninguém em todo Israel mais belo e esbelto que Saul. (I Sm 9:2)
- Saul tinha um porte físico robusto uma vez que "sobressaía dos ombros para cima a todo o povo." (I Sm 9:2; 10:23)
- Para Saul estava reservado tudo o que era de mais precioso em Israel. (I Sm 9:20)
- Foi escolhido por Deus e ungido por Samuel como rei de Israel. (I Sm 10:1)
- O Espírito do Senhor desceu sobre Saul, ele profetizou e foi mudado em um outro homem. (I Sm 10:6)
- Foi recebido e exaltado com "vivas" de júbilo por todo povo quando estabelecido rei de Israel. (I Sm 10:24)
Definitivamente havia algo especial estabelecido para Saul. O destino estabelecido para ele era extraordinário.
b. Saul tinha problemas com seu pai
- Quis, pai de Saul, homem de bens e muitos empregados, mandou o seu filho Saul procurar por algumas jumentas que haviam se extraviado (I Sm 9:3). Parece que o pai de Saul, ao invés de determinar a Saul um trabalho honroso, deu a ele algo sem muito valor: procurar por algumas jumentas. Iria um grande fazendeiro mandar seu principal homem procurar por alguns animais que não tinham muito valor? Não mandaria ele algum outro empregado?
- Saul percorreu vários quilômetros durante três dias, por uma grande região, em busca dos jumentos perdidos. Não queria voltar de mãos vazias! Por que? Um dos motivos era que seu pai não admitiria ou o desprezaria por não ter encontrado os jumentos (I Sm 9:4, 20).
- Quando Saul voltou de procurar as jumentas, quem saiu ao seu encontro, ao chegar em casa, foi seu tio e não seu pai. Havia uma distância entre Saul e seu pai (I Sm 10:14-16)
- Nenhuma vez se percebe Saul honrando seu pai, porém seu tio foi muito honrado e se tornou o grande general do exército de Saul.
c. Machucaduras interiores de Saul geradas pelo mau relacionamento com o seu pai
- Inferioridade. Quando Samuel declarou o que Deus tinha estabelecido para sua vida, ele mostrou seu sentimento de incapacidade e inferioridade, imaginando que não pudesse ter algo tão grande determinado para sua vida. Apesar de aparentar forte e esbelto para os outros, para si mesmo ele era fraco e incapaz.
"Então, respondeu Saul e disse: Porventura não sou benjamita, da menor das tribos de Israel? E a minha família, a menor de todas as famílias de Benjamim? Por que, pois, me falas com tais palavras? (I Sm 9:21)
- Baixa auto estima. Quando o povo de Israel se reuniu para aclamar Saul como rei, ele havia se escondido entre a bagagem por vergonha que sentia por estar em frente a um grande número de pessoas. (I Sm 10:21,22)
- Medo e necessidade de reconhecimento. Saul havia sido advertido por Samuel para destruir todos amalequitas com todos seus animais e possessões, para que nada pudesse trazer maldição sobre Israel. Mas quando o povo viu todas as coisas boas que os amalequitas tinham, eles decidiram ficar com algumas. Também Saul provavelmente tenha ficado muito inseguro diante de Agague, rei dos amalequitas, a tal ponto de não obedecer a ordem do Senhor. Quando Saul foi advertido por Samuel por sua desobediência, explicou sua motivação: "temi o povo, e dei ouvidos a sua voz" (I Sm 15:24). Saul tinha medo que o povo não o aprovasse. A voz da sua alma doente falou mais alto que a voz de Deus.
Estas são apenas alguns sentimentos interiores gerados pela falta de uma paternidade sadia, o que levou Saul a ter atitudes de derrota.
d. Atitudes derrotistas advindas dos sentimentos deturpados de Saul
- Coação, liderança por medo, dominação e controle. Na primeira dificuldade que Saul enfrentou com o povo, matou uma junta de bois, cortou em pedaços e enviou por todos os territórios de Israel, mandando dizer: "Assim se fará aos bois de todo aquele que não seguir a Saul e a Samuel." Com isso o povo temeu e seguiu a Saul (I Sm 15:5-7). Saul usou a estratégia do medo para gerar obediência, estratégia esta usada pelo Diabo.
- Rebeldia, se justifica e não admite erros. Na guerra contra os filisteus, Saul deveria ter esperado por Samuel para oferecer sacrifício. Por temor e agindo precipitadamente, por conta própria ofereceu sacrifício antes de Samuel chegar. Quando advertido por Samuel, se justificou com desculpas que mostravam claramente seus sentimentos interiores de medo e insegurança. (I Sm 13:7-13)
- Atitudes impensadas. Em um determinado momento, Saul declarou que ninguém poderia comer até o anoitecer e se o fizesse morreria. Porém seu filho Jonatas não ouviu sobre este decreto do rei e colocou um pouco de mel na boca. Saul estava disposto a matar seu filho, que seria seu sucessor por ter feito algo por ignorância. Se não fosse o povo interceder por Jonatas, Saul o teria matado. (I Sm 14:24-27; 39-45)
- Preocupa-se com a aparência. Saul agrega ao seu exército todos os homens que a sua vista eram fortes e valentes, com a finalidade de ter um exército poderoso. Não importava outras coisas, apenas a força e a valentia, pois o que mais interessava a Saul era aparentar ser o melhor. (I Sm 14:52)
- Rebeldia, eliminação de qualquer desafiante e destruição de toda oposição. O teste final do problema interior de Saul foi com Davi. Primeiramente Saul ofereceu sua armadura para Davi lutar contra Golias, não para proteção de Davi, mas para aparentar ao exército que Saul é que estava enfrentando o gigante – porque Davi era um rapaz novo, e Saul era um homem muito alto – como sua armadura serviria em Davi? (I Sm 17:38-39) Depois Saul não suportou quando Davi voltava das batalhas e as mulheres cantavam nas ruas: "Saul feriu seus milhares, porém Davi seus dez milhares." (I Sm 18:7) Saul percebeu em Davi uma ameaça e perseguiu-o com a intenção de matá-lo.
Tal era o desajuste de emocional de Saul, que mesmo depois de estar convencido que Davi seria seu sucessor, e não tendo conseguido matá-lo, pediu para Davi não eliminar seu nome e sua descendência da história, pois não queria ser desprezado mesmo depois de morto. (I Sm 24:20,21)
d. Como ser curado no coração
- A primeira coisa a ser feita é entender que todas pessoas estão expostas a serem machucadas interiormente. Na verdade todas as pessoas já foram machucadas e todos precisam ser curados. A cura é um processo contínuo que precisa acontecer continuamente, pois continuamente estamos sendo machucados.
- Em segundo lugar temos que perdoar de todo coração aquele que nos ofendeu e decidir viver com as conseqüências do erro de outrem sem imputá-lo culpa.
- Terceiro, temos que admitir que ninguém poderá substituir a falta de amor em um determinado momento da nossa vida. Não adianta procurar isto em outra pessoa, porque apenas Deus pode suprir a carência gerada pela falta de amor em algum determinado período da vida de uma pessoa. Davi sabia disso e escreveu: "Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá.’ (Sl 27:10)
- Por último, o senso de identidade e propósito na vida devem ser desenvolvidos. Se a pessoa não souber quem é e qual o propósito de sua existência (para que foi criada – qual seu destino) ela continuará perdida e em busca de algo que não consegue encontrar.
Daniel era um homem curado. Não buscava honra própria nem corria atrás de reconhecimento (Dn 5:17), não tinha medo de enfrentar as circunstâncias (Dn 5:22-30) e diante da morte preferiu obedecer a Deus (Dn 6). Características de um homem que não possuía um espírito egoísta e angustiado, mas sim um "Espírito de Excelência."
Ricardo Wagner, apóstolo


